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quinta-feira, 24 de Março de 2011

A Trapa: Reino de silêncio e oração


Em outra ocasião eu havia feito uma postagem sobre os Cartuxos – uma ordem religiosa pouco conhecida(vide no meu blog: Cartuxa, os Cartuxos e o Chatreuse).

Agora eu vou falar de outra igualmente pouco conhecida: a Trapa.

Uma coisa curiosa é que se os cartuxos vivem na mais extrema solidão, mesmo entre si, na Trapa os trapistas fazem tudo em conjunto, porém ambos guardam silêncio.

A abadia trapista assemelha-se a uma minúscula cidade cujo centro é a igreja e o mosteiro propriamente dito. Nas proximidades erguem-se edificações, destinadas aos afazeres dos monges, e os campos para o cultivo, constituindo tudo isso um pequeno mundo.

Nas horas de trabalho manual, os religiosos dedicam-se às ocupações mais variadas, que garantem sua subsistência e – por expressa determinação da Regra – permitem seu isolamento em relação ao mundo.

O silêncio é outra característica da Ordem. Excetuadas poucas ocasiões, os trapistas invariavelmente guardam silêncio, mesmo durante os trabalhos. Tal silêncio propicia ao monge melhores condições de recolhimento, para meditação e oração. Nunca falar... que fonte de renúncias, que ocasiões de penitência! Entretanto, o silêncio é algo de positivo: nele o trapista emudece em relação às criaturas para melhor poder ouvir o Criador.

O isolamento, o silêncio, a vida de oração e o trabalho manual são prescritos pela Regra de São Bento, que é adotada na Trapa.

VIDA DE ORAÇÃO:

Ainda é noite quando o grande sino desperta os monges e os chama para o canto do Ofício. Os trapistas, como várias ordens religiosas, ao longo dos séculos foram incubidos pela Igreja de rezar o Ofício em seu nome. Após a recitação deste, os monges sacerdotes celebram a Missa, e há um tempo dedicado às orações individuais. Segue-se uma nova hora de Ofício (a Prima), a leitura de um capítulo da Regra e leituras individuais. A Missa solene e o canto da hora Sexta do ofício encerram o período de orações matutinas.

Depois da refeição matinal, os monges partem para o trabalho manual. Vão arar a terra, colher frutos, cuidar da horta e dos animais. Há monges ferreiros, alfaiates marceneiros, etc. Próximos ao prédio principal, esparsos de cá e de acolá, estão os locais de trabalho. Neles, por exemplo, um religioso encaderna livros da grande biblioteca, outro monge alfaiate confecciona hábitos; mais adiante um terceiro monge recompõe um vitral. Nesses locais reinam o silêncio e recolhimento completos.

Na horta, vários trapistas tratam do que será depois o alimento da abadia e dos pobres que batem à sua porta. Mais afastados ficam os campos de cereais e outras plantações que exigem maior área, o pomar, o campo destinado ao gado, etc.

Ao toque do sino nas horas prescritas, agrupam-se nos locais de trabalho e rezam o Ofício ou o Rosário.

Após uma interrupção para o almoço e breve repouso, os religiosos retomam os afazeres até o entardecer. Durante as refeições um monge lê em tom solene a Sagrada Escritura ou obras espirituais. Em certos dias, no refeitório, vê-se o local ocupado por um monge com um pequeno vaso de flores: é a data de seu aniversário. A luz do sol poente penetra pelos vitrais, quando ecoam vozes monacais entoando as horas Vésperas e Completas do Ofício. Segue-se a última refeição e algum tempo de oração e leitura.

Por fim, o som majestoso e solene do grande sino chama a todos para cantar a oração final do dia, a Salve Regina (Salve Rainha). Para aqueles que visitam a Trapa, essa é uma hora inesquecível: após uma longa jornada de orações e trabalhos, os monges reúnem-se aos pés da imagem de Nossa Senhora. Um profundo silêncio de faz, e os monges retiram-se. À porta que os conduz ao claustro, o Abade, pai dos monges, abençoa-os um a um.

O que leva homens, no decorrer de tantos séculos a tudo renunciar e viver só para Deus?
A Trapa já está acostumada a casos como jovens, bem colocados financeiramente, residindo em país próspero de nossos dias, levando vida muito confortável, bater à porta da Trapa. Ele deseja entrar para o mosteiro.

O mestre de noviços atende-o afavelmente e explica-lhes as renúncias que ele deve fazer, a vida de oração e penitência a que deve se submeter. Ele tornar-se-á morto para o mundo e o mundo para ele. A Regra prescreve que, tendo o monge aceitado entrar livremente, não poderá sair do mosteiro nem em caso de morte dos pais.

Pouco tempo depois, o jovem faz um retiro de três dias, e após um mês de postulantado realiza-se a cerimônia de recepção do hábito. Na sala do Capítulo, diante de todos os monges, o rapaz prosterna-se com a face em terra.

- Que pedis? – pergunta o Abade.

O postulante responde com as mesmas palavras de São Bernardo ao solicitar sua entrada na Abadia de Cister:

- A misericórdia de Deus e a vossa.

Faz-se então a promessa de observar a Regra e é revestido da túnica, escapulário e capa que o Abade acaba de abençoar. Recebe um nome religioso e seus cabelos são cortados, como símbolo de renúncia ao mundo. Inicia-se a fase de sólida formação, que o preparará para fazer os votos religiosos por três anos, findo os quais poderá fazer os votos perpétuos.

ORIGEM DA TRAPA

Em 1098, São Roberto de Molesmes funda a primeira Abadia em Cister, na França. Ausente São Roberto, dois santos o sucederam: Alberico e Estevão Harding. Cister irá conhecer um período difícil de treze anos. A chegada de São Bernardo, acompanhado de trinta discípulos, vem dar um novo impulso à nova fundação.

Em Cister, São Bernardo observa com zelo a Regra e compenetra-se profundamente em seu espírito. Os monges passam a ver nele a Regra Viva. Impelido pela mesma chama com que pregou a Segunda Cruzada, São Bernardo espalha mosteiros cistercienses por toda a Europa. À sua morte já existiam 350 abadias dessa observância.

Séculos depois, a decadência geral dos costumes, durante a época do Renascimento e protestantismo, provoca o relaxamento da Ordem cistercience. Uma profunda reforma dos costumes e da vida monástica é efetuada, em 1662, por Armand Jean lê Bouthillier de Rance, tendo por centro a Abadia de Nossa Senhora da Trapa. Nasce então a atual ordem dos Cistercienses da Estrita Observância, que procura voltar integralmente às origens de Cister e à Regra de São Bernardo. Em fins do século XVIII, sopra sobre a França e a Europa a tempestade da Revolução Francesa. Os trapistas são expulsos de suas casas, os mosteiros incendiados e as igrejas destes profanadas. Após 24 anos de exílio, voltam os religiosos e as abadias renascem.

O Papa Leão XIII efetuou a unificação das diversas congregações originadas da Trapa –dispersas a partir da Revolução Francesa – mediante a convocação do Capítulo Geral de 1882.

Durante a guerra civil de 1936 na Espanha, os comunistas fuzilam vinte e um trapistas jogando os corpos no mar. Na Iugoslávia e na China, os comunistas fecham, saqueiam ou incendeiam mosteiros; os trapistas são presos ou expulsos. Neste último país mais de trinta deles são martirizados. A observância de uma rigorosa regra religiosa, o amor a Deus e à Igreja, levaram esses religiosos contemplativos a preferir a morte a qualquer transigência em matéria de Fé.

Fonte: Revista Catolicismo de maio de 1985./blog Almas Castelos (cortesia)

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